Notas

O galanteio

 

umbrella

Cena1: É domingo e eu entro no edifício onde moro. O elevador chega. Ela abre a porta e sorri: Primeiro as damas. Retribuí o sorriso e entrei. Trocou comigo duas ou três palavras afáveis antes de descer no segundo andar. Morando na Cidade Baixa, estou habituada a cantadas de ambos os sexos, mas não entendi bem o que ela queria com aquela gentileza. Cena2: Amiga minha me contou que um colega de trabalho que chegava das férias elogiou sua pele.

Em nenhum dos dois casos quem fez o elogio tinha qualquer intenção de levar a coisa adiante. Essa é a diferença entre galanteio e e cantada. Às vezes a cantada também não tem uma intenção específica, mas é mais direta e descarada, ao passo que o galanteio se caracteriza pela elegância e gentileza. O que move, então o galanteador?

Talvez o galanteio seja um fim em si mesmo e faça muito bem a quem tem o hábito de fazê-los, já que é algo dado generosamente. Puxando pela memória, percebi que os homens mais galantes que eu conheci têm excelente autoestima. Para o galanteador do mesmo sexo, talvez funcione também como uma forma afirmação da identidade sexual. Algo como: não estou jogando agora porque não quero, mas tenho condições de estar no jogo quanto qualquer um.

Longe de mim fazer apologia aos tempos em que ser mulher era mais difícil, mas tenho que confessar: sou capaz de me derreter com um galanteio bem feito. Tenho medo que relações virtuais, as inúmeras possibilidades e nossa pressa estejam ameaçando a gentileza de extinção.

Aos galanteadores, meu apelo. Insistam. Às galanteadoras, repito o apelo. Insistam, mesmo sob o risco de rechaço. Em tempos de selfies curtidos de qualquer jeito e elogios virtuais a belezas inexistentes, acho que precisamos mesmo é do agrado genuíno, aquele que nos torna únicos. Pra mim, esses instantes trazem beleza à vida, e a beleza anda rara.

Portanto, amigo ou amiga, ao receber a pequenina joia que é um galanteio num dia cinza, agradeça, se a timidez não impedir. Sobretudo sorria. É possível que um sorriso salve da extinção o galanteio derradeiro, aquele que seria último.